Estudo aponta mercúrio em gestantes Munduruku até 4,5 vezes acima do limite seguro da OMS

Resultado preliminar da Fiocruz indica média de 9,1 microgramas por grama de cabelo na Terra Indígena Munduruku, no Médio Tapajós (PA), e aponta que 97% das mulheres monitoradas estão acima do patamar considerado seguro.

04/06/2026 às 17:19 por Redação Plox

Gestantes da Terra Indígena Munduruku, na região do Médio Tapajós, no Pará, apresentaram concentração média de mercúrio de 9,1 microgramas por grama de cabelo, índice quatro vezes e meia acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde. O dado faz parte de resultado preliminar de um estudo longitudinal da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, apresentado nesta quarta-feira (3), durante a Rio Nature & Climate Week, no Rio de Janeiro. 


Mercúrio em gestantes Munduruku supera limite seguro e acende alerta para bebês no Pará.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil


Segundo os pesquisadores, 195 mulheres são monitoradas no levantamento, e 97% delas apresentaram níveis de mercúrio acima do patamar seguro. No caso mais grave identificado até agora, uma gestante teve 39,9 microgramas por grama de cabelo, cerca de 20 vezes o limite tolerável.

Bebês já nascem contaminados

Entre as mulheres acompanhadas, 134 já deram à luz. De acordo com a pesquisa, cerca de 90% dos bebês nasceram com presença de mercúrio no organismo, já que o metal pode atravessar a placenta durante a gestação. A média encontrada nas crianças foi de 5,8 microgramas por grama de cabelo, quase três vezes o limite considerado seguro. Em um caso extremo, o índice chegou a 30,8 microgramas


Bebês já nascem contaminados.

Foto: Fabio Miranda - Sesai/MS


O coordenador da pesquisa, Paulo Basta, informou que os bebês são acompanhados nos primeiros dois anos de vida, com avaliação de crescimento, peso, estatura e marcos do neurodesenvolvimento. A hipótese investigada é que a exposição ao mercúrio ainda no período pré-natal possa provocar atrasos no desenvolvimento neurológico.

Risco neurológico e impacto nas aldeias

Basta alertou que o mercúrio pode se transformar em uma neurotoxina com efeito sobre o sistema nervoso central. Segundo ele, lesões nessa região podem ser irreversíveis, o que aumenta a preocupação com gestantes, recém-nascidos e crianças pequenas. O pesquisador também citou suspeitas de relação entre a contaminação e casos de doenças neurológicas raras, síndromes e anomalias congênitas, ainda em apuração científica. 


Monitoramento ainda busca estatísticas oficiais.

Foto: Divulgação/Sesai/MS



A liderança Alessandra Korap Munduruku relatou que os primeiros diagnósticos de contaminação, divulgados em 2022, provocaram forte comoção nas aldeias. Ela afirmou que o peixe é a principal base alimentar do povo Munduruku, o que torna a situação ainda mais grave, já que o metal chega ao organismo humano principalmente pelo consumo de pescado contaminado.

Garimpo e contaminação dos rios

A região do Médio Tapajós convive há décadas com a pressão do garimpo de ouro. O mercúrio é usado na separação do ouro e, quando descartado de forma inadequada, contamina rios, peixes e outros organismos aquáticos. Dados do MapBiomas indicam que a Amazônia concentra a maior parte da área garimpada no Brasil, com grande parte das frentes de garimpo próxima a rios, lagos e igarapés.  


Região do Médio Tapajós convive há décadas com a pressão do garimpo de ouro.

Foto: Reprodução



Relatórios recentes também apontam fragilidades no controle da cadeia do ouro. O Greenpeace Brasil afirma que permissões de lavra garimpeira podem ser usadas para escoar ouro extraído ilegalmente da Amazônia. Já estudo do Climate Policy Initiative/PUC-Rio aponta que, mesmo quando regularizado, o garimpo de ouro pode gerar impactos socioambientais semelhantes aos da atividade ilegal, como desmatamento, contaminação por mercúrio e conflitos com povos tradicionais.

Monitoramento ainda busca estatísticas oficiais

Segundo Paulo Basta, há 751 casos de indígenas contaminados por mercúrio com confirmação laboratorial já identificados no país, sendo 318 no Pará e 378 em Roraima, ligados ao povo Yanomami. O pesquisador defende que esses dados sejam incorporados às estatísticas oficiais e destaca que o sistema de saúde ainda não conta com uma ficha específica de notificação para contaminação por mercúrio. O acompanhamento das gestantes e dos bebês Munduruku deve continuar para medir os impactos da exposição ao metal ao longo dos primeiros anos de vida.

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