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Mercúrio em gestantes Munduruku supera limite seguro e acende alerta para bebês no Pará.
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Segundo os pesquisadores, 195 mulheres são monitoradas no levantamento, e 97% delas apresentaram níveis de mercúrio acima do patamar seguro. No caso mais grave identificado até agora, uma gestante teve 39,9 microgramas por grama de cabelo, cerca de 20 vezes o limite tolerável.
Entre as mulheres acompanhadas, 134 já deram à luz. De acordo com a pesquisa, cerca de 90% dos bebês nasceram com presença de mercúrio no organismo, já que o metal pode atravessar a placenta durante a gestação. A média encontrada nas crianças foi de 5,8 microgramas por grama de cabelo, quase três vezes o limite considerado seguro. Em um caso extremo, o índice chegou a 30,8 microgramas.
Bebês já nascem contaminados.
Foto: Fabio Miranda - Sesai/MS
O coordenador da pesquisa, Paulo Basta, informou que os bebês são acompanhados nos primeiros dois anos de vida, com avaliação de crescimento, peso, estatura e marcos do neurodesenvolvimento. A hipótese investigada é que a exposição ao mercúrio ainda no período pré-natal possa provocar atrasos no desenvolvimento neurológico.
Basta alertou que o mercúrio pode se transformar em uma neurotoxina com efeito sobre o sistema nervoso central. Segundo ele, lesões nessa região podem ser irreversíveis, o que aumenta a preocupação com gestantes, recém-nascidos e crianças pequenas. O pesquisador também citou suspeitas de relação entre a contaminação e casos de doenças neurológicas raras, síndromes e anomalias congênitas, ainda em apuração científica.
Monitoramento ainda busca estatísticas oficiais.
Foto: Divulgação/Sesai/MS
A liderança Alessandra Korap Munduruku relatou que os primeiros diagnósticos de contaminação, divulgados em 2022, provocaram forte comoção nas aldeias. Ela afirmou que o peixe é a principal base alimentar do povo Munduruku, o que torna a situação ainda mais grave, já que o metal chega ao organismo humano principalmente pelo consumo de pescado contaminado.
A região do Médio Tapajós convive há décadas com a pressão do garimpo de ouro. O mercúrio é usado na separação do ouro e, quando descartado de forma inadequada, contamina rios, peixes e outros organismos aquáticos. Dados do MapBiomas indicam que a Amazônia concentra a maior parte da área garimpada no Brasil, com grande parte das frentes de garimpo próxima a rios, lagos e igarapés.
Região do Médio Tapajós convive há décadas com a pressão do garimpo de ouro.
Foto: Reprodução
Relatórios recentes também apontam fragilidades no controle da cadeia do ouro. O Greenpeace Brasil afirma que permissões de lavra garimpeira podem ser usadas para escoar ouro extraído ilegalmente da Amazônia. Já estudo do Climate Policy Initiative/PUC-Rio aponta que, mesmo quando regularizado, o garimpo de ouro pode gerar impactos socioambientais semelhantes aos da atividade ilegal, como desmatamento, contaminação por mercúrio e conflitos com povos tradicionais.
Segundo Paulo Basta, há 751 casos de indígenas contaminados por mercúrio com confirmação laboratorial já identificados no país, sendo 318 no Pará e 378 em Roraima, ligados ao povo Yanomami. O pesquisador defende que esses dados sejam incorporados às estatísticas oficiais e destaca que o sistema de saúde ainda não conta com uma ficha específica de notificação para contaminação por mercúrio. O acompanhamento das gestantes e dos bebês Munduruku deve continuar para medir os impactos da exposição ao metal ao longo dos primeiros anos de vida.