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    Tornar-se ‘mãe do marido’ pode acabar com o casamento

    Especialistas alertam que o excesso de cuidado, embora possa parecer carinho, é o primeiro passo para diminuir a libido do casal

    Por Plox

    05/01/2021 10h56 - Atualizado há 9 meses

    “Você tem médico hoje”, “vou te acordar na hora”, “você comeu direito antes de ir?”, “vou marcar uma consulta para você”. E “ah, já foi na casa da sua mãe?”. Identificou-se com alguma dessas situações? Você trabalha fora, tem uma rotina corrida, mas arranja tempo para decidir o que o seu companheiro vai vestir ou comer e até organiza a agenda dele e adivinha suas vontades. Você pode até achar que amar é cuidar, mas especialistas alertam: é preciso ter atenção para que o instinto maternal e o excesso de carinho não se transformem em inimigo do casal e acabem com toda a parte boa do relacionamento, inclusive a paixão e a libido.

    Algumas mulheres se recusam a admitir, mas a verdade é que muitas exageram e acabam se transformando em mãe dos companheiros. Este é o caso da bibliotecária Danielle Oliveira, 26. Profissão, marido, sexo, casa, filhos. A lista da jovem é longa. A jornada, na verdade, não chega nem a ser dupla, mas tripla, porque, além das atribuições pessoais, Danielle gerencia a vida do companheiro. “Eu era responsável até por acompanhar os e-mails dele e conferir as folhas de ponto do trabalho”, desabafa.

    Mas a relação nem sempre foi assim. Dani, casada há seis anos, começou ajudando-o a terminar um trabalho de faculdade, lembrando sobre ir ao dentista, ajudando a comprar roupas, até que se viu cuidando das finanças do marido. “Eu sou muito proativa e organizada. Ele é o total oposto. E por isso acabei, aos poucos, assumindo todo o planejamento da nossa vida. Começou com coisas sutis, como levar duas toalhas quando viajávamos, porque eu sabia que ele ia esquecer. E com o passar do tempo ele ficou cada vez mais acomodado e dependente da minha organização”, conta. “Controlo a agenda, acompanhamento médico, organização de estudo, planejamento de viagens, desde escolha de local até o roteiro completo do passeio. Chegou ao ponto de que eu pegava todo o salário dele e administrava”, relata.

    A maneira como a mulher age com o companheiro ou vice-versa é fruto da base familiar
    A maneira como a mulher age com o companheiro ou vice-versa é fruto da base familiarFoto: Freepik

    Guinada.
    Grávida de poucas semanas, Danielle decidiu mudar de vez a situação. “A questão é que agora vai ser desafiador para mim se continuar assim, então separei nossas contas e dividi as responsabilidades financeiras, domésticas e sociais de cada um. Estamos em fase de teste, então eu ainda controlo todo o feedback. Fiz uma planilha financeira para ele e só tenho lembretes para conferir se ele cumpriu a parte dele, que são as compras da casa, gastos relacionados às cachorras e manutenção do veículo”, afirma. 

    Sem ainda saber o sexo do filho, Danielle não quer que a história se repita independentemente se a criança for menino ou menina. “Isso me esgota, porque às vezes ele vem pedir alguma opinião ou até autorização para alguma coisa. Não tinha surpresa, encantamento, por exemplo. Eu planejava as saídas, onde íamos, quanto podíamos gastar. Eu sabia o orçamento que tínhamos para presente. O meu erro foi que eu sempre tive o pensamento de que mulher precisa ser independente, capaz. Eu entrei no relacionamento impondo que eu era uma igual em relação a tudo, não aceitaria aquele papo de ‘homem provedor’ e mulher que cria os filhos e cuida da casa, mas talvez eu não contasse que para meu marido isso era ótimo”, pontua.

    “Meu marido tem três irmãs mais velhas, ele foi mimado, as irmãs tinham obrigação de cuidar dele e das obrigações domésticas. Eu quero outra criação para a minha família”, completa.

    Parceiros não devem confundir papel na relação 

    Gestos de cuidado fazem parte de todo relacionamento. Mas para a sexóloga e psicóloga Enylda Motta, naturalizar o papel de mãe é um caminho sem volta. Ao confundir a função entre companheira e mãe, o prejuízo não é só a exaustão de uma das partes. Segundo ela, o casal perde o referencial sexual do parceiro. E não, você não tem o “dedo podre”, você só foi criada em uma cultura em que a mulher era educada para servir até mesmo sem perceber. Afinal, o papel feminino sempre foi associado ao cuidado. 

    “A mulher que trata o parceiro como filho muito provavelmente adquiriu responsabilidades muito cedo, ela não experimentou ser cuidada, ter afeto. Ela só é responsável para que o outro não se frustre. A questão é que isso afeta a estrutura do relacionamento, pois é uma relação sem admiração, e a admiração é essencial para que um casal continue sendo um casal”, avalia. “Você deixa de ver o parceiro, e predomina a figura paternal e maternal. Você tem atração sexual pela sua mãe?”, questiona. 

    A psicóloga Aline Bicalho faz coro. “Servir não é o problema, desde que seja de mão dupla. Nenhuma relação a dois é unilateral. Mas esse tipo de comportamento possivelmente tem a reprodução da família de base. E, se o homem permite, talvez tenha tido o mesmo exemplo. É um problema social e comum, a gente só não percebe”, pontua. 

    Mas Ailton Amélio, professor do Instituto de Psicologia da USP, alerta que nem sempre esse comportamento nas relações se resume a um traço de personalidade feminina. Segundo ele, existem várias formas de amar. “Claro, existe a domesticação da mulher, e isso é algo ligado ao machismo, mas é preciso entender que, além das estruturas sociais – porque os referenciais vão mudando, e isso era aceitável até muito tempo –, existem formas de amar. Na psicologia, existem algumas formas de apego. Algumas pessoas se atraem por serem conquistadas constantemente, para outros a amizade é o principal elemento, tem aqueles racionais, que colocam todos os pontos positivos na relação, e tem aquele que o cuidar é o que o move. Todo tipo de amor tem suas vantagens e desvantagens se não for dosado”, explica.

    "Essa construção de como nos relacionamentos tem muito a ver com a forma que fomos criados, são influências que recebemos até a adolescência. E isso acontece com homens que se colocam no lugar de pais da companheira. Em sua maioria, são homens que não tiverem uma presença paterna presente ou estruturada. Mães inconstantes e ausentes, geram filhos dependentes assim como mães frias e distantes geram parceiros desconfiados no futuro. Nosso comportamento é reflexo e uma forma de compensar o nosso passado", afirma. 

    Segundo Amélio, a maneira mais simples de alterar o padrão é tomar consciência. “A terapia é o caminho, porque você precisa ter ciência do que faz, entender o que é cuidado com o parceiro, o que é saudável para a relação, de onde vem sua necessidade e por que o outro tem essa necessidade”, observa. 

    Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/tornar-se-mae-do-marido-pode-acabar-com-o-casamento-1.2431390
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