O nome da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) passou a figurar na Difusão Vermelha da Interpol, um banco de dados com indivíduos procurados pela Justiça em 196 países. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (5), após determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e atende a pedido formal da Polícia Federal.
Foto: Câmara dos Deputados Zambelli foi considerada oficialmente foragida após deixar o Brasil dias após ser condenada a 10 anos de prisão, em regime fechado, por envolvimento na invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O ministro Moraes também determinou que a Câmara dos Deputados suspenda o pagamento de verbas e salários do gabinete da parlamentar.
Em decisão recente, o STF também ordenou a abertura de um novo inquérito para apurar suspeitas de coação no curso do processo e tentativa de obstrução de investigação criminal envolvendo organização criminosa. Para Moraes, a deputada age de forma semelhante à estratégia usada por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos Estados Unidos desde março.
O paradeiro de Zambelli, desde que deixou o Brasil, tem gerado confusão. Na terça-feira (3), a deputada afirmou em live que estava na Europa. Em seguida, seu marido declarou que ambos estavam nos Estados Unidos. Posteriormente, Zambelli disse à CNN Brasil que se encontrava na Flórida. Na manhã de quinta-feira, o empresário Paulo Figueiredo Filho afirmou que ela estava na Itália.
Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar, é influenciador digital e aliado de Eduardo Bolsonaro. Ele também é alvo do inquérito das fake news no STF e foi denunciado pela PGR por tentativa de golpe. Apesar de ter um mandado de prisão preventiva em aberto, ele afirmou ao UOL não estar foragido, alegando que já colaborou com a Justiça por meio de consulados em processos anteriores.
A Justiça não conseguiu localizá-lo para notificações, e a Defensoria Pública da União foi designada para representá-lo. Segundo a DPU, Figueiredo está nos EUA, em “endereço incerto e não sabido”, o que impossibilita o contato direto para defesa.
Outro foco da investigação é a movimentação financeira da deputada. O Banco Central foi acionado por Moraes para rastrear valores recebidos via Pix por Zambelli. A parlamentar arrecadou pelo menos R$ 285 mil, afirmando que o dinheiro seria usado para pagar multas judiciais. A arrecadação começou em 19 de maio, quando ela divulgou saldo bancário negativo e, em dois dias, já somava quase R$ 300 mil em sua conta.
Mesmo após deixar o Brasil, Zambelli manteve o pedido de doações nas redes sociais, agora administradas por sua mãe, Rita Zambelli. Segundo a deputada, Rita é sua “pré-candidata a deputada federal” para o próximo ano, com o objetivo de continuar o que chamou de “luta contra o autoritarismo”.
Apesar das acusações, Zambelli não teve o passaporte apreendido antes de deixar o país. Em 2023, chegou a ser alvo dessa medida, mas o documento foi devolvido. Assim, ela pôde sair do Brasil legalmente no último fim de semana. Mesmo com a condenação, sua perda de mandato ainda depende de deliberação pela Câmara, conforme prevê a Constituição.
No entanto, o STF já declarou a inelegibilidade da parlamentar por oito anos. O recurso chamado embargos de declaração ainda pode ser apresentado, embora não altere a sentença, apenas adie o trânsito em julgado.
Zambelli enfrenta, além da pena de prisão, uma indenização de R$ 2 milhões por danos morais e coletivos. O hacker Walter Delgatti Neto, que confessou ter sido contratado por ela para inserir documentos falsos no sistema do CNJ, foi condenado a mais de 8 anos de prisão. Um dos documentos simulava até um mandado de prisão contra o próprio ministro Moraes, com assinatura falsa.
“Após sua condenação, com a fuga do distrito da culpa, a ré declarou que pretende insistir nas condutas criminosas, para tentar descredibilizar as instituições brasileiras e atacar o próprio estado democrático de direito”, justificou Moraes na decisão que decretou a prisão preventiva.
Além de estar na mira do STF e da Interpol, Zambelli acumula ao menos quatro condenações relacionadas à divulgação de fake news contra adversários políticos e o sistema eleitoral. Em dezembro de 2024, o TRE-SP acatou uma ação da deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP), cassando seus direitos políticos por oito anos.
Zambelli também foi condenada a pagar R$ 10 mil ao presidente Lula por fake news sobre o caso Celso Daniel, além de outras multas por desinformação durante a campanha eleitoral de 2022, que somam mais de R$ 60 mil. A Primeira Turma do STF vai julgar os recursos contra sua condenação em sessão extraordinária, marcada a pedido de Moraes e autorizada pelo ministro Cristiano Zanin.
Enquanto tenta articular sua defesa à distância, Zambelli aposta em um possível apoio da presidência da Câmara para barrar a ação penal no caso do CNJ. Segundo ela, o presidente da Casa, Hugo Motta, deu aval ao líder do PL, Sóstenes Cavalcante, para tentar suspender a ação.
A situação da deputada, agora procurada internacionalmente, se tornou um dos principais capítulos da tensão entre integrantes da extrema direita e o Supremo Tribunal Federal.