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    'Quando fiz as contas de quanto tempo ficaríamos trancados, chorei muito', diz brasileira em Xangai

    'Quando fiz as contas de quanto tempo ficaríamos trancados, chorei muito', diz brasileira em Xangai

    Por Plox

    10/05/2022 10h34 - Atualizado há cerca de 1 mês

    No final de março, os 26 milhões de moradores de Xangai, na China, passaram a viver sob uma rigorosa política de confinamento imposta pelo governo com o objetivo de conter um novo surto de Covid-19, o mais grave desde o início de 2020, no país asiático. 

    Para erradicar a doença, a China, que tem 90% de sua população vacinada, mantém uma política de Covid-zero, provocando frustração em grande parte dos habitantes, que relataram dificuldades para comprar alimentos e outros produtos de necessidade diária. No entanto, são raras as manifestações de oposição aos controles rígidos do Estado.

    Brasileira está enfrentando as restrições em Xangai, na China, ao lado do marido e de seus dois filho

     

    A brasileira Joana Molgaard, de 38 anos, mora em Xangai desde 2019, e relata como está sendo o período de isolamento na China para ela, seu marido Thomas e seus filhos Clara, de 5 anos, e Erik, de 7 meses. Em entrevista ao R7, ela conta que não ficou muito preocupada quando foi anunciado o primeiro lockdown de cinco dias, pois jamais imaginou que o isolamento poderia durar tanto tempo.

    “Minha única preocupação na época era que, devido a outros lockdowns pontuais e também ao anúncio da quarentena, estava bem difícil conseguir comida”, lembra a brasileira. “Em geral, aqui em Xangai, eu faço compras on-line e tudo chega em 30 minutos. Na semana antes do lockdown, já estava bem difícil achar as coisas e nos dias anteriores estava caótico. As filas nos mercados estavam enormes.”

     

    Mas, o que Joana não esperava era que ficaria mais de um mês de quarentena e, parte parte desse período, sem poder sair de seu apartamento, localizado no distrito de Changning, área nobre da cidade chinesa. Isso porque moradores de dois apartamentos do prédio vizinho ao seu tiveram Covid-19.

     

    “O primeiro caso foi registrado em 6 de abril. Com isso, ganhamos 14 dias de quarentena, sete em casa e mais sete podendo descer na área comum, além dos seis que já havíamos passado sem sequer sair do apartamento”, explica. “Quando fiz as contas de quanto tempo ficaríamos trancados, eu me tranquei no banheiro, liguei o chuveiro e chorei muito”.

    A brasileira revela, porém, que algo de incomum aconteceu. Apenas um dos testes realizados pelo vizinho, o PCR, deu positivo, enquanto todos os outros foram negativos. “Ele foi levado a um centro de quarentena onde ficou por quatro dias, se não me engano. Todos acreditam que foi um falso positivo.”

    Apesar disso, existem regras para testagem. Ela explica que toda a família já fez nove testes PCRs em um mês e, nos dias em que não há o exame, é preciso fazer o teste de antígeno em casa.

    Covid-19 na vizinhança

    Clara e os testes feitos pela família
    Clara e os testes feitos pela famíliaREPRODUÇÃO INSTAGRAM/@CLARA_PELO_MUNDO

     

    Mesmo assim, no dia 13 ou 14 de abril, outros moradores do prédio também pegaram a doença. Pai e filho em um apartamento e mais uma mulher grávida de sete meses e os avós da criança. “Ganhamos mais 14 dias! Foi desesperador! Nossa possibilidade de descer na área comum foi empurrada por mais uma semana!”, relembra. 

    No dia 20, o condomínio de Joana e de sua família passou a ser "área de controle “, quando não há casos nos últimos sete dias, e foi possível voltar a descer na área comum. Dois dias depois, porém, a família recebeu a notícia de que mais alguém havia testado positivo e, por causa disso, o comitê residencial, responsável por aplicar as diretrizes do governo chinês, mandou um documento colocando todos em zona fechada novamente.

    “Na hora eu desci com a minha filha e disse que não ia me trancar de novo pois o novo caso já estava isolado. Outros moradores se juntaram e conseguimos permanecer descendo na área comum”, relata Joana. 

     

    Compras coletivas

    O bem-estar e a saúde dos filhos é a principal angústia da brasileira atualmente. Ela conta que, apesar de agora não estar faltando nada e ela já ter se adaptado a realizar compras coletivas, no início, ela não sabia como funcionava essa forma de consumo.

    ”Faltou leite, frutas e o maior estresse, que foi fralda. Eu tenho um bebê de 7 meses e passava o dia tentando o serviço de entrega, mas não tinha entregador suficiente.”

    A solução foi um entregador de aplicativo, no qual as pessoas podem escolher a gorjeta que desejam dar ao trabalhador. Joana ofereceu RMB 100, aproximadamente R$ 75, e conseguiu. “Quando ele entregou a fralda, trocamos nossos WeChat e quando preciso de algo que não acho em compra coletiva, peço para ele achar para mim”.

    Joana comemora a compra de fraldas para o filho durante o isolamento em Xangai
    Joana comemora a compra de fraldas para o filho durante o isolamento em XangaiREPRODUÇÃO INSTAGRAM/@CLARA_PELO_MUNDO

     

    Joana e a família também recebem alguns itens do governo, porém ela afirma que isso não acontece com a maioria das pessoas e que eles têm muita sorte.

    Filho com febre

    Joana conta que seu filho mais novo teve febre nas últimas semanas e, pela regra, pessoas com a temperatura alta só podem ser vistas pelas chamadas “clínicas de febre” que, no momento, só existem em hospitais públicos. Além disso, para sair do condomínio, também é necessária a permissão do comitê residencial e ter feito um teste PCR com no máximo 48 horas de antecedência. 

    “Como eu tinha feito PCR no dia anterior à febre do Erik, eu decidi levá-lo ao médico. Marquei no hospital internacional, agendei o carro que custou RMB 1000 (R$751,27) e tirei a permissão. Na manhã da consulta, dei remédio para febre pro Erik, pois se ele chegasse no hospital internacional com febre não iam vê-lo. Não queria ir ao hospital público com medo dele pegar Covid ou qualquer outra doença”, contou Joana. 

     

    Após serem atendidos por um otorrino, Erik e sua mãe foram se consultar com o pediatra do hospital. Uma enfermeira, porém, constatou que o bebê estava com febre e o hospital se recusou a examiná-lo se a temperatura não baixasse.

    “Fui embora sem ver a pediatra e foi quando me bateu o desespero. No fim, o Erik tinha roséola, que não é sério, mas e se fosse? A sensação de impotência de não poder ajudar seus filhos é algo que nunca vou superar”.

    Manifestações contra o isolamento

    Mesmo com o sentimento de não poder ajudar as crianças e o incômodo com a situação em Xangai, assim como muitos moradores, Joana afirma que manifestações não são permitidas e a mídia chinesa não menciona as que ocorrem. ”Vemos vídeos pelo Weibo, mídia social daqui, e vídeos espalhados pelo WeChat. A censura tenta apagar, mas até eles conseguirem já está viral”.

    A esperança é o que resta para a brasileira, que afirma já ter passado por todos os estados mentais possíveis e estar encarando um dia após o outro.

    “As compras coletivas se normalizaram e passamos a poder descer com as crianças. Isso deu um certo alívio. Agora, com quase 40 dias de lockdown, eu me agarrei à luz no fim do túnel. Acredito que até o final de maio as coisas se normalizem um pouco”, finaliza a brasileira. 

    Fonte: Joana Molgaard tem dois filhos pequenos e enfrenta dificuldades com o marido para comprar fraldas e alimentos
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