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Produtores rurais do Rio Grande do Sul e do Paraná relatam dificuldade para comprar diesel e aumentos considerados “abusivos” no preço do combustível em pleno período de colheita de arroz e de soja. O óleo é essencial para movimentar máquinas agrícolas e para o transporte da produção, e o cenário de incerteza já acendeu o alerta em entidades do setor e em órgãos de fiscalização.
Produtores gaúchos afirmam que, até poucos dias atrás, o abastecimento seguia normalmente, sem preocupação quanto à entrega. A situação mudou de forma repentina com o encarecimento do combustível e a criação de listas de espera para novos pedidos.
Paralelamente, produtores do Paraná também relatam falta de diesel em algumas regiões e dificuldade de acesso via distribuidoras, levantando o risco de paralisação de colheitadeiras, tratores e caminhões em um momento de pico da atividade no campo.
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Foto: Reprodução
No Rio Grande do Sul, agricultores apontam que o problema surgiu de forma concentrada na última semana, com relatos de produtores sendo incluídos em filas para conseguir abastecer as máquinas. Em pontos de compra no interior do estado, o valor do litro do diesel tem avançado em pouco tempo, pressionando o custo da colheita.
No Paraná, técnicos de entidades ligadas ao agro têm recebido, desde o meio da semana, relatos de falta de combustível ou de dificuldade de aquisição junto às distribuidoras que atendem determinadas regiões. Foram citados casos em municípios como Rio Azul, Faxinal, Guarapuava, Prudentópolis e Irati, todos com queixas de indisponibilidade ou de acesso restrito ao diesel.
No norte do Rio Grande do Sul, em Erechim, há informações de que uma parcela dos produtores já enfrenta obstáculos para encontrar óleo diesel para abastecer as máquinas, ao mesmo tempo em que relata elevação expressiva dos preços, em patamares que variam de um aumento moderado até saltos bem acima da média recente.
As queixas no campo surgem em um contexto de instabilidade no mercado internacional de petróleo, com o barril alcançando a casa dos US$ 100 após o início do conflito envolvendo EUA, Israel e Irã. A disparada no preço externo aumenta a incerteza sobre custos futuros de importação e reforça o temor de novos repasses ao consumidor.
Embora a Petrobras ainda não tenha anunciado um novo reajuste interno atrelado a esse movimento, o diesel já vinha registrando alta nos primeiros dias de março. Produtores e associações do setor passaram a suspeitar que parte do mercado estaria se antecipando a possíveis aumentos ao reter produto ou restringir entregas, o que alimenta a percepção de um movimento especulativo sobre o combustível.
Frente à escalada recente, cresce o receio de que a conta final da colheita de arroz e soja fique mais pesada, tanto pelo custo direto do diesel como pelo encarecimento do frete até armazéns, indústrias e portos.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirma que, apesar dos relatos de dificuldade de compra e atrasos nas entregas, não há registro oficial de desabastecimento de diesel no país. Em nota divulgada no domingo (8), a agência informou ter entrado em contato com os principais fornecedores e apurado que o Rio Grande do Sul conta com estoques suficientes para assegurar o abastecimento de diesel.
A agência disse ainda que as distribuidoras serão formalmente notificadas para que prestem esclarecimentos sobre o volume em estoque, os pedidos recebidos e os pedidos efetivamente aceitos. ANP
Segundo a ANP, eventuais aumentos considerados injustificados também serão alvo de monitoramento, em articulação com órgãos de defesa do consumidor, diante da possibilidade de práticas irregulares na formação dos preços.
Sem uma explicação clara e uniforme para o que está ocorrendo em diferentes regiões, parte dos produtores e das entidades rurais levanta a hipótese de que distribuidoras e revendedores estejam agindo de forma especulativa, segurando estoques ou reduzindo compras diante da disparada do petróleo no mercado internacional.
O setor lembra que a produção nacional de diesel não atende a totalidade da demanda interna, o que torna o país dependente da importação de uma parcela relevante do produto. Assim, qualquer freio nas importações ou recuo de empresas em assumir novas cargas pode criar um “buraco” no suprimento, especialmente em momentos de alta forte no preço do barril.
Há também a percepção de que empresas que atuam na ponta da distribuição possam estar se posicionando para não ter prejuízo na reposição de estoques caso a Petrobras anuncie reajustes nos próximos dias, repassando parte desse risco para o produtor, que se vê diante de subida rápida de preços e oferta mais restrita.
Diante das denúncias de aumentos “abusivos”, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu uma investigação para apurar o comportamento dos preços dos combustíveis, após pedido da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). O objetivo é verificar se há prática anticoncorrencial ou abuso econômico em diferentes elos da cadeia.
No dia a dia da produção agrícola, a maioria dos produtores não dispõe de estrutura para armazenar grandes volumes de diesel nas fazendas. Em vez disso, depende de entregas frequentes realizadas por empresas especializadas, conhecidas como Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs).
Essas empresas atuam como revendedoras: compram o combustível das grandes distribuidoras para entregá-lo diretamente nas propriedades rurais, abastecendo tratores, colheitadeiras e caminhões que fazem o escoamento da safra. O modelo dá agilidade ao campo, mas torna os produtores mais vulneráveis a interrupções quando há problemas na cadeia de suprimento.
Segundo representantes do setor, o que se observa no Rio Grande do Sul é que um número crescente de TRRs relata não estar recebendo o volume de diesel de que necessita das distribuidoras. Muitas dessas empresas atuam como clientes “spot”, sem contratos fixos, o que as coloca em posição de menor prioridade no momento em que há disputa por produto.
Essa condição de “bandeira branca” faz com que, em situações de maior tensão no mercado, esses revendedores sejam os primeiros a enfrentar cortes de fornecimento ou limitação de volume, afetando diretamente os produtores rurais que dependem deles.
A combinação de acesso restrito ao combustível com alta acelerada de preços amplia o risco de paralisação parcial das frentes de colheita. Sem diesel, máquinas param, janelas de colheita se estreitam e aumentam as chances de perda de produtividade ou de qualidade do grão, especialmente em culturas sensíveis ao ponto de colheita, como arroz e soja.
Do lado financeiro, o diesel mais caro impacta diretamente o custo de operação de colheitadeiras, tratores e caminhões, além de encarecer o frete para transporte da produção até armazéns, unidades de beneficiamento e portos. Esse efeito em cascata pode pressionar toda a cadeia de alimentos, do campo até o consumidor final.
Produtores relatam que, em poucos dias, o valor por litro subiu de um patamar em torno de R$ 5 para níveis próximos de R$ 7 em alguns pontos, alterando a conta da safra em plena reta final da colheita. Em regiões em que margens já são apertadas, esse tipo de variação compromete o resultado do ciclo produtivo.
Frente ao avanço dos preços e ao temor de desabastecimento, associações rurais e representantes do setor de combustíveis vêm pedindo ao governo medidas para aumentar a oferta de biodiesel no mercado doméstico como forma de segurar a escalada.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) encaminhou ao Ministério de Minas e Energia um pedido para elevar a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel, dos atuais 15% para 17%. A entidade argumenta que essa mudança poderia ampliar a oferta total de combustível, reduzir custos logísticos e fortalecer a segurança energética do país.
Ao mesmo tempo, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) divulgou em seu site uma nota conjunta com outras entidades do setor, defendendo a possibilidade de importação de biodiesel em volume equivalente a até 20% da demanda nacional, como ferramenta adicional para conter a escalada de preços.
Entre as entidades que assinam o documento estão a Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Biocombustíveis (Brasilcom), o SindTRR e o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), indicando uma convergência entre segmentos do agro e da cadeia de combustíveis em torno do uso do biodiesel como amortecedor da crise.
Enquanto produtores do Rio Grande do Sul e do Paraná seguem relatando atrasos, listas de espera e saltos nos preços do diesel, a atuação dos órgãos federais e das entidades de classe tende a ser decisiva para esclarecer as causas do problema.
No curto prazo, a expectativa é acompanhar se as notificações da ANP às distribuidoras trarão transparência sobre estoques, pedidos recebidos e recusas de fornecimento; se a investigação aberta no Cade avançará sobre eventuais práticas abusivas; e se o governo responderá às demandas por maior uso de biodiesel, seja via aumento de mistura obrigatória, seja por liberação de importações.
Enquanto isso, no campo, cada dia de incerteza sobre o abastecimento de diesel em plena colheita reforça o sentimento de vulnerabilidade entre os produtores, que veem seu planejamento ser refeito a cada novo aumento ou atraso na entrega do combustível.