MapBiomas aponta alta de 163% na fragmentação da vegetação nativa no Brasil desde 1986

Levantamento indica mais fragmentos e menor área média, com alerta para riscos à biodiversidade e avanço de vetores de degradação.

13/05/2026 às 16:10 por Redação Plox

Um levantamento recém-divulgado pelo MapBiomas mostra que o Brasil passou a conviver com um número muito maior de porções isoladas de vegetação nativa nas últimas décadas. Em 1986, eram 2,7 milhões de fragmentos; em 2023, esse total chegou a 7,1 milhões, alta de 163% ao longo de 38 anos. Para os pesquisadores, o avanço indica como o desmatamento vem convertendo áreas contínuas de cobertura verde em remanescentes cada vez mais recortados. 


As porções isoladas de vegetação nativa cresceram de 2,7 milhões, em 1986, para 7,1 milhões, em 2023, em todo o país, conclui um novo estudo do Mapbiomas divulgado nesta quarta-feira (13).

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


As informações fazem parte do Módulo de Degradação, uma plataforma do MapBiomas voltada à análise, integração e monitoramento de mudanças na cobertura e no uso da terra no país. Segundo o estudo, esta é a primeira vez que a fragmentação — entendida como a divisão de grandes áreas de vegetação nativa — entra no radar da análise.

Mais fragmentos, com áreas menores

Além de crescer em quantidade, a vegetação nativa remanescente também perdeu dimensão média. No início da série histórica, cada fragmento tinha, em média, 241 hectares; em 2023, a média caiu para 77 hectares.

Para Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenador do Módulo de Degradação, o encolhimento preocupa porque o tamanho desses remanescentes influencia diretamente a diversidade e a abundância de fauna e flora. Ele aponta que a redução da área tende a elevar o risco de extinções locais, diminuir a recolonização por espécies vindas de fragmentos próximos e ampliar o chamado efeito de borda.

“Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais das espécies, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda [perda de características naturais mais presentes nas margens próximas às áreas degradas]”

Dhemerson Conciani

Onde a fragmentação é mais visível

De acordo com o estudo, quase 5% da vegetação nativa do Brasil — o equivalente a 26,7 milhões de hectares — está distribuída em fragmentos com menos de 250 hectares. A concentração dessas pequenas porções isoladas é mais marcante na Mata Atlântica, onde elas correspondem a quase 28% do que ainda resta de vegetação nativa no bioma, cerca de 10 milhões de hectares.

Ao observar o número absoluto de fragmentos, Mata Atlântica e Cerrado lideram, com 2,7 milhões de porções isoladas em cada um. A coordenadora técnica de Mata Atlântica no MapBiomas, Natalia Crusco, indica que a fragmentação avança nesses dois biomas por razões distintas: no Cerrado, o movimento se relaciona ao desmatamento e ao fracionamento de grandes remanescentes; já na Mata Atlântica, parte do aumento também pode refletir o surgimento de diversas áreas em recuperação, com expansão de vegetação secundária.

Em 2023, o levantamento registrou quase 662 mil fragmentos na Amazônia, 600 mil na Caatinga, 324 mil no Pampa e 45 mil no Pantanal.

Pantanal e Amazônia entre os maiores aumentos

Ao longo dos 38 anos avaliados, o Pantanal e a Amazônia foram os biomas que mais intensificaram a fragmentação, com crescimento de 350% e 332%, respectivamente. No Pampa, o número de porções isoladas subiu 285%, enquanto o Cerrado teve aumento de 172%. Caatinga e Mata Atlântica variaram menos no período, mas ainda assim apresentaram avanço, com altas de 90% e 68%.

No recorte de tamanho médio dos fragmentos, a Amazônia aparece como a mais afetada. O estudo aponta redução de 82% na área média dessas porções: de 2.727 hectares, em 1986, para 492 hectares, em 2023.

Nova leitura sobre distúrbios no dossel da Amazônia Legal

Os dados reunidos pelo Módulo de Degradação também abriram caminho para uma análise inédita: a identificação de distúrbios no dossel de formações florestais — a camada formada pelas copas das árvores mais altas — em toda a Amazônia Legal.

Entre 1988 e 2024, foi observado algum sinal de distúrbio por pelo menos um mês em 24,9 milhões de hectares, área equivalente a 7% da cobertura florestal na Amazônia Legal. Na prática, o estudo descreve a presença de clareiras associadas a secas, ventos, incêndios, corte seletivo de madeira, efeito de borda e outras perturbações.

Entre as causas apontadas, os pesquisadores destacam o corte seletivo de madeira como um dos principais vetores desse tipo de distúrbio na região. No período analisado, foram mapeados 9,7 milhões de hectares com indícios dessa prática.

Degradação nem sempre deixa o solo exposto, mas enfraquece os biomas

Fragmentação, efeito de borda, fogo e corte seletivo podem não resultar imediatamente em desmatamento com a terra exposta, mas contribuem para a degradação ambiental. Segundo o detalhamento da plataforma do MapBiomas, 24% de toda a vegetação nativa remanescente do país está sujeita a pelo menos um vetor de degradação — o equivalente a 134 milhões de hectares.

Conciani avalia que compreender esse quadro com mais precisão pode fortalecer políticas públicas voltadas a reduzir emissões de gases de efeito estufa associadas ao desmatamento e à degradação. Para ele, a detecção precoce permite reverter processos em curso e direcionar áreas prioritárias para recuperação da vegetação nativa, preservando funções e serviços ambientais dos ecossistemas.

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