STF cobra explicações de Mário Frias sobre emendas ligadas a produtoras de filme sobre Bolsonaro

Deputado ainda não respondeu ao ministro Flávio Dino; oficiais relataram tentativas de intimação no gabinete entre março e abril

14/05/2026 às 17:09 por Redação Plox

O Supremo Tribunal Federal (STF) apura a destinação de emendas parlamentares a empresas e entidades ligadas à produtora responsável por Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. No centro do caso está o deputado federal Mário Frias (PL-SP), que ainda não prestou esclarecimentos ao ministro Flávio Dino, apesar de uma ordem expedida há mais de um mês. 


STF tenta intimar o Deputado Federal Mário Frias (PL-São Paulo), há mais de um mês.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil


De acordo com o processo, oficiais de Justiça têm tentado intimar o parlamentar para que responda a questionamentos sobre possíveis irregularidades envolvendo recursos direcionados a organizações conectadas à produtora artística. A determinação de Dino fixou prazo de cinco dias para a resposta, contados a partir de 21 de março, após representação apresentada pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP).

Tentativas de intimação e suspeitas sobre o destino das emendas

Na petição, Tabata aponta que Frias teria indicado pelo menos R$ 2 milhões para a Academia Nacional de Cultura (ANC), organização não governamental presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama. Karina também comanda o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Go Up Entertainment, produtora do filme biográfico, com estreia prevista para meados de setembro, semanas antes do primeiro turno das eleições.

Conforme consta na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 854, a oficial de Justiça responsável pela intimação procurou Frias no gabinete dele, na Câmara dos Deputados, em Brasília, ao menos três vezes entre março e abril. Em todas as ocasiões, segundo o registro processual, assessores informaram que o deputado estaria em São Paulo, em atividades de campanha, e não demonstraram interesse em detalhar a agenda do parlamentar.

Reportagem motivou a representação e citou repasses do PL

A iniciativa de Tabata Amaral foi motivada por uma reportagem publicada em dezembro de 2025 pelo site The Intercept Brasil. Segundo a publicação, a ANC teria recebido R$ 2,6 milhões provenientes de emendas apresentadas por deputados federais do Partido Liberal (PL), sigla do ex-presidente Bolsonaro. Além de Mário Frias, são mencionados os deputados Bia Kicis e Marcos Pollon.

Com base nesses elementos, Tabata levanta a hipótese de que diferentes empresas e entidades formariam um grupo econômico sob direção única, o que, segundo ela, poderia dificultar a rastreabilidade da execução do dinheiro público e acabar sustentando, de forma indireta, produções audiovisuais de caráter ideológico.

Respostas ao STF: Pollon e Kicis dizem que indicações não foram executadas

Também intimados por Dino, Bia Kicis e Marcos Pollon apresentaram manifestações dentro do prazo. Pollon afirmou ter destinado R$ 1 milhão à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo para viabilizar, por meio da Go Up Entertainment, a produção de uma série documental intitulada Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem.

Segundo o deputado, o projeto não foi adiante por “incapacidade da entidade beneficiária de cumprir requisito técnico essencial”, e os valores foram redirecionados para a saúde, em favor do Hospital de Amor de Barretos (SP). Ele sustenta que, sem execução, não haveria desvio de finalidade ou irregularidade na aplicação dos recursos públicos.

Bia Kicis, por sua vez, declarou ter indicado R$ 150 mil para a mesma série citada por Pollon e também afirmou que a indicação não foi executada. Ela classificou a petição de Tabata como “maldosa” ao associar sua emenda a supostos desvios e disse não haver ligação entre o recurso indicado e o filme Dark Horse. A deputada ainda rebateu a acusação de que teria contribuído com dinheiro público para custear a produção sobre Bolsonaro e argumentou que o STF deveria considerar o mérito social e econômico do projeto, afirmando que sua escolha foi uma decisão política voltada ao estímulo da cultura, da educação e da economia criativa.

Após provocação do ministro Flávio Dino, a Advocacia da Câmara dos Deputados informou que, sob o ponto de vista processual, não encontrou irregularidades nas duas emendas atribuídas a Mário Frias — as únicas apontadas por Tabata Amaral na representação.

Intercept cita pedido de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para financiar o filme

Nesta quarta-feira (13), o The Intercept Brasil publicou nova reportagem afirmando que o senador Flávio Bolsonaro teria solicitado ao banqueiro Vorcaro a destinação de cerca de R$ 134 milhões para custear Dark Horse. Ainda segundo a publicação, ao menos R$ 61 milhões teriam sido liberados.

O site também relata que áudios indicariam trocas de mensagens entre o senador e o banqueiro sobre a necessidade de recursos para a produção, às vésperas da primeira prisão de Vorcaro no contexto da Operação Compliance Zero. Deflagrada em novembro de 2025, a operação aprofunda investigações sobre supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e fraudes em negociações envolvendo os bancos Master e de Brasília (BRB).

“Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso e fico preocupado com o efeito contrário com o que a gente sonhou para o filme” Flávio Bolsonaro

Frias nega aporte de banco e diz que projeto é privado

Na mesma quarta-feira (13), Mário Frias — que atua como roteirista e produtor executivo do filme — declarou que o senador Flávio Bolsonaro não tem participação societária no projeto nem na Go Up Entertainment, empresa de Karina Ferreira da Gama. Segundo ele, a obra não recebeu “nem um único centavo” do Banco Master ou de Vorcaro.

Frias afirmou ainda que, mesmo que houvesse aporte, não veria problema por se tratar de relação privada sem dinheiro público envolvido e, segundo ele, na época não havia suspeitas sobre o banqueiro e o banco. Ex-secretário especial de Cultura entre 2020 e 2022 na gestão Bolsonaro, o deputado também buscou justificar os custos do filme, que ele diz serem elevados, comparando com a produção de Ainda Estou Aqui, vencedora do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, que totalizou R$ 45 milhões.

Na nota, Frias define Dark Horse como uma superprodução com padrão hollywoodiano, bancada integralmente por capital privado, com ator “de primeira linha” e equipe com diretor e roteirista de renome internacional. Ele acrescenta que o projeto é real, deve chegar aos cinemas nos próximos meses e que, para investidores, tende a ser um negócio bem-sucedido.

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