Peru leva Keiko Fujimori e Roberto Sanchéz ao 2º turno após recontagem; Aliaga fica fora
Apuração teve atrasos e questionamentos em Lima, mas missões da UE e da OEA disseram não ver indícios de irregularidades; disputa está marcada para 7 de junho.
15/05/2026 às 16:44por Redação Plox
15/05/2026 às 16:44
— por Redação Plox
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Depois de mais de um mês de contagem marcada por dificuldades e questionamentos, o Peru definiu quem seguirá na disputa pela Presidência no segundo turno, agendado para 7 de junho. A eleição ocorre em meio a uma crise política prolongada e também escolheu a nova composição do Congresso: 130 deputados e 60 senadores para um mandato de cinco anos, enquanto o país tenta encontrar estabilidade após sucessivas trocas no comando do Executivo.
Depois de quase um mês de eleições conturbadas no Peru, Keiko Fujimori e Roberto Sanchéz estão no 2º turno, marcada para o dia 07 de junho.
Foto: Divulgação/Plataforma Digital Única del Estado Peruano
Na votação com 35 candidatos e um eleitorado de mais de 27 milhões de pessoas aptas a votar, a direita avançou com Keiko Fujimori, que somou 17,18% dos votos. Do outro lado, a esquerda emplacou Roberto Sanchéz Palomino, com 12,03%, garantindo presença na etapa final por uma margem apertada: o ultraconservador Rafael Aliaga terminou com 11,90%, apenas 21 mil votos atrás do segundo colocado.
Contagem tensa, denúncias e validação internacional
A apuração foi atravessada por atrasos em alguns locais de votação em Lima, pela renúncia de uma autoridade eleitoral e por demora na divulgação dos resultados. O processo também foi agitado por acusações de fraude feitas por Rafael Aliaga, sem apresentação de provas, além de pedidos para que houvesse nova votação — pleito que acabou rejeitado pela autoridade eleitoral.
Mesmo com os problemas logísticos, missões de observação da União Europeia e da Organização dos Estados Americanos (OEA) informaram que não encontraram evidências que sustentassem alegações de fraude. A proclamação oficial do resultado ficou marcada para domingo (17), a cargo do Jurado Nacional de Eleições (JNE), após um procedimento inédito de recontagem.
Fujimori volta ao segundo turno e carrega o peso do passado
Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, Keiko retorna ao segundo turno depois de ter sido derrotada nessa etapa nas eleições de 2011, 2016 e 2021. As perdas sucessivas, segundo a leitura presente no debate político, alimentam a expectativa de adversários de que ela enfrenta um “teto” de votos associado à resistência de parte do eleitorado à herança do pai, condenado por violações de direitos humanos.
Na campanha, Keiko tem defendido maior aproximação com os Estados Unidos (EUA) de Donald Trump. O posicionamento é acompanhado com atenção por analistas por envolver possíveis efeitos sobre investimentos chineses no país, que abriga o Porto de Chancay, usado para o escoamento da produção do continente em direção à Ásia.
Quem é Roberto Sanchéz e o que ele propõe
O adversário de Keiko na próxima fase é Roberto Sanchéz, deputado do Juntos Pelo Peru e aliado do ex-presidente Pedro Castillo. Ele integrou o governo de Castillo como ministro do Comércio Exterior e Turismo, em 2021. Psicólogo de formação, Sanchéz também foi apontado como um dos entusiastas do projeto do Porto de Chacay.
Entre os principais pontos associados ao seu campo político estão a nacionalização de recursos naturais, a convocação de uma nova constituinte para reorganizar as instituições do país e a ampliação de direitos trabalhistas. No debate sobre Castillo, seus apoiadores sustentam que o ex-presidente foi derrubado pelo peso do Parlamento, após ter representado o voto da população rural.
Ministério Público apresenta denúncia contra o candidato
No meio da apuração, veio a público uma denúncia do Ministério Público do Peru contra Sanchéz. O órgão pediu 5 anos e 4 meses de prisão por supostas irregularidades na prestação de contas partidárias entre 2018 e 2020. O candidato nega as acusações.
Em 12 de maio, a acusação criminal foi publicizada com a alegação de que ele teria declarado informação falsa sobre aportes de campanhas do Juntos pelo Peru. Além da pena de prisão, o Ministério Público solicita a “inabilitação definitiva” do candidato. Sanchéz afirma que o caso já havia sido arquivado pelo Judiciário e negou participação na administração financeira do partido.
Nunca fui tesoureiro do partido. Eu não fiz coquetéis, não recebi dinheiro nem dos bancos, nem dos mineradores, nem de ninguém
Roberto Sanchéz
Um país em instabilidade e sucessões no poder
O cenário eleitoral se conecta à instabilidade recente: em 2021, Pedro Castillo venceu Keiko Fujimori no segundo turno. Sua chegada ao Planalto foi vista como surpreendente, já que o professor rural de centro-esquerda não aparecia entre os primeiros colocados nas pesquisas de então.
Castillo acabou afastado e preso após tentar dissolver o Parlamento e, em novembro de 2025, foi condenado a mais de 11 anos de prisão. A vice, Dina Boluarte, assumiu e respondeu com repressão às manifestações contra a destituição. Segundo cálculo da Anistia Internacional, a violência deixou 49 mortos. Com baixa aprovação, Boluarte foi destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025.
Na sequência, o presidente do Parlamento, José Jerí, assumiu por um período curto e também foi destituído pelo Congresso em 17 de fevereiro do mesmo ano. A Presidência passou então, de forma interina, a José María Balcázar Zelada, eleito indiretamente pelo Parlamento — frequentemente apontado no país como o poder de fato.
O Peru em números e a fronteira com o Brasil
Com cerca de 34 milhões de habitantes, o Peru é o quarto país mais populoso da América do Sul. O país tem uma fronteira de 2,9 mil quilômetros com o Brasil, extensão inferior apenas à divisa brasileira com a Bolívia.