Chá de revelação: celebração em rosa e azul divide opiniões

Festas para apresentar ao mundo o sexo do bebê caem no gosto dos casais brasileiros 'grávidos', mas mentora da festa diz hoje se arrepender amargamente

Por Plox

16/11/2020 13h17 - Atualizado há 15 dias

As fotos postadas nas redes sociais de famosos à espera da visita da cegonha só ratificam o sucesso de uma comemoração que, nos últimos anos, vem arregimentando cada vez mais adeptos no Brasil: as festas de revelação do sexo do bebê, promovidas por papais compreensivelmente radiantes pela chegada de mais um membro da família. 

A apresentadora Amanda Françozo foi uma das famosas a endossar a tendência: trajando um vestido com listras rosas e azuis, ela recebeu os convivas para, só no momento certo, revelar, junto ao marido, que seriam pais de uma menina. Claudia Leitte estourou um balão do qual saíram confetes cor-de-rosa, indicando que ela, já mãe de dois meninos, teria então uma filha. As bexigas dividem democraticamente espaço com a tática de cortar uma fatia do bolo e, pela cor do recheio, contar a todos se quem está vindo é um menino ou uma menina. Dispensável dizer que o indicativo responde pelas cores azul e rosa. 

Curiosamente, o uso dessas cores para a identificação do sexo foi duramente criticado no início de 2019, quando, na cerimônia de posse do ministério formado pelo presidente Jair Bolsonaro, a advogada Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, cravou: “Menino veste azul, e menina veste rosa. Atenção, atenção: é uma nova era no Brasil”. 

 

Foto: Pixabay
 

O apresentador Luciano Huck de pronto foi às redes e postou uma foto trajando uma camisa rosa, junto à mulher, Angélica, vestindo uma azul. A legenda: “Azul ou rosa? Tanto faz”. “Meninas e meninos se vestem como querem”, endossou a atriz Fernanda Paes Lemes.  Maysa, Paola Carosella, Felipe Catto, Gaby Amarantos, Maria Gadu e João Paulo Cuenca foram outros que se manifestaram contra a tentativa da ministra de associar cores a gênero. 

Portanto, é como se, nos dias atuais, houvesse dois movimentos que caminham paralelamente, mas em direção oposta. Se por um lado temos cada vez mais consciência de que a sexualidade do ser humano tem infinitas gradações, por outro há pessoas que, mesmo inconscientemente, muitas vezes na melhor das intenções, reforçam a binaridade de gênero. Vale dizer que até mesmo uma celebridade transexual aderiu recentemente à moda da festa de revelação do sexo do seu bebê com as tradicionais cores rosa e azul. 

A psicóloga clínica e coordenadora da Plataforma Rede Psicoterapia Rozane Fialho lembra que a mãe apontada como criadora do chá de revelação – a norte-americana Jenna Karvunidis, em 2008 – se arrependeu enormemente do “feito”. “Foi um movimento que, para ela, não faz mais sentido nos dias atuais. Aliás, relata que não gosta de carregar este ‘título’, pois, hoje, entende as discussões de gênero e percebe que a temática não colabora em nada para a discussão. E a criança que recebeu o primeiro chá de revelação é inclusive uma menina que não segue os estereótipos femininos”, conta. 

De fato, ao “The Guardian”, Jenna contou que, nas gestações seguintes, não fez mais a festa. Sua chave virou quando, aos 3 anos, ao ganhar um Lego, a primogênita teve uma crise de choro ao entender que teria ganhado um “presente de menino”, em função de o objeto não ter a cor rosa. “Há uma obsessão por gênero que torna tudo limitador em muitas formas e explorador em outras”, contou ela ao citado veículo. Na mesma entrevista, Jenna revelou ainda que chorou ao ler a notícia de que um chá de revelação havia provocado um incêndio em uma floresta. “Porque me senti responsável”, diz. 

Cores não definem sexualidade da criança 
A psicóloga clínica Lilian Amaral entende que a celebração é uma demonstração de um apreço quase ingênuo dos pais pela binaridade definida por cor. “Digo sobre uma ingenuidade festiva, porque é certo que não será a cor revelada no chá nem a usada nas roupas e nos acessórios ao longo da formação do filho que vão definir a sua sexualidade, posto que mecanismos internos muito mais ricos e complexos que balões ou fumaça colorida nos constituem”, analisa. Ela entende inclusive que o risco de frustração dos genitores é alto. “Se naturalmente já há uma frustração quando, com o desenvolvimento dos filhos, os pais percebem caminhos, escolhas e modos de vida diferente dos que haviam planejado, imagina tendo todo esse investimento extra? A criança nada tem a ver com essas escolhas dos pais e será mais saudável se não se sentir cobrada por todo esse aparato que recebeu sem precisar – e sem pedir”, explica. 

Para a psicóloga Rozane Fialho, um dos fatores que ajudaram a disseminar a festividade é a própria internet, “que vai ao encontro de pessoas cada vez mais sedentas por aprovação e likes e que repetem o evento sem nenhum questionamento a respeito”.  Lilian concorda e lembra que existem inclusive bebês que, com poucos dias de vida, já ganham perfis em redes sociais. “Tudo, de uns tempos para cá, deve ser ‘instagramável’, senão, é como se não existisse, se não tivesse importância. É preciso ser visto, e, mais que visto, admirado (curtido, comentado) para se ter o devido valor. Isso em todos os eventos, dos mais sofisticados aos mais banais. E a maternidade e o nascimento, importantes por sua natureza, não escapam a essa ‘tendência’”, explica. 

Outro fator que Rozane cita é econômico: “Certamente há empresas especializadas no ramo investindo no marketing destes eventos”. Basta uma busca simples no Google para atestar que, sim, Rozane tem toda razão. Lilian Amaral concorda: “O nascimento é, sem dúvida, um grande evento na vida dos pais, mas também tem virado um grande negócio”. 

Ainda no bojo das publicações nas redes, Rozane lembra que não é difícil encontrar, na web, vídeos de familiares e até mesmo dos pais com expressão de decepção ao descobrirem o sexo biológico da criança. “E essa insatisfação, no momento em que é captada por uma câmera, pode, sim, mais tarde, ter consequências na vida dessa criança. Ela pode, por exemplo, desenvolver sentimentos negativos por não ter sido aceita naquele primeiro momento”, diz.

Aliás, no quesito expressão de pais e convidados, Lilian Amaral completa: “Ao ver registros da celebração, com muita alegria quando a cor e o sexo são revelados, minha pergunta sempre é: e se fosse a outra cor, haveria demonstração de decepção? Ou no fim, tanto faz, desde que a cor não seja diversa, múltipla e distante dos padrões?”. 

Peso diferente para as mulheres 
A psicóloga Rozane Fialho avalia ainda que o reforçamento de estereótipos, no frigir dos ovos, acaba pesando mais sobre as mulheres. “A ideia do rosa remete à doçura, à fragilidade, à tal ‘feminilidade’, à delicadeza... Se lutamos por igualdade, temos que problematizar, sim, uma festa ou torcida para que venha menino ou menina. Importante ressaltar aqui que, mais tarde, essa criança pode não se identificar com o sexo biológico com que nasceu ou pode ser não binária”, explica. 

Foi o que aconteceu há poucos meses com Love Gwalney, uma norte-americana que fez um chá de revelação bem diferente. “Queríamos anunciar que erramos 17 anos atrás, quando dissemos ao mundo que estávamos tendo uma menininha e a batizamos com o nome de McKenzie. Então, agora gostaríamos de apresentar o nosso filho: Gray”. 

O texto acompanhava fotos de Gray com um bolo sobre o qual havia um emblemático ponto de interrogação. No Brasil, a fagulha do questionamento parece já ter se acendido em algumas celebridades: a modelo Isabel Hickmann, irmã de Ana Hickmann, fez um chá de revelação em tons neutros, como o bege.

Para Lilian, “é lindo que os pais possam celebrar o nascimento dos filhos, desejando e cuidando para que possam ser livres, amados e respeitados independentemente da ‘cor’ que a vida lhes der, e que todos possam aprender, dessa nova vida, que, quanto mais colorida a existência, mais feliz”. “O amor deve vir carregado das premissas da aceitação, cuidado e liberdade. É mais simples que um grande evento e mais profundo que uma fumaça colorida. Eu amo porque o outro existe (seja lá como ele for)”, finaliza. 

Rozane arremata com uma pergunta: “Há realmente necessidade de comemorar o sexo da criança?”. E completa: “Saudável é comemorar a vida da criança. É preparar um lar que ofereça segurança e amor – e a aceite nas próprias escolhas”.

Uma curiosidade e tanto. Ano passado, ainda no bojo da repercussão das palavras de Damares, a BBC Brasil trouxe uma matéria com Jo Paoletti, professora emérita de Estudos Americanos na Universidade de Maryland e autora do livro "Pink and Blue: Telling the Boys from the Girls in America" (Rosa e Azul: Distinguindo Meninos de Meninas nos Estados Unidos). Ao se debruçar, sobre  publicações antigas, Jo encontrou, em uma revista de 1918, a seguinte informação: "A regra geralmente aceita é que rosa é para os meninos, e azul para as meninas. O motivo é que o rosa, sendo uma cor mais decidida e forte, é mais apropriado para meninos. Enquanto o azul, que é mais delicado e gracioso, é mais bonito para a menina".

Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/cha-de-revelacao-celebracao-em-rosa-e-azul-divide-opinioes-1.2413225
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