Ipatinga

economia

X FECHAR
ONDE VOCÊ ESTÁ?

    Quatro em dez trabalhadores ganham até um salário mínimo em Minas

    Taxa é pior para informais e salta para quase 60%; especialistas avaliam que, mesmo com recuperação dos empregos, mercado é mais precarizado do que antes da pandemia

    Por Plox

    20/06/2022 13h39 - Atualizado há 11 dias

    Antes da pandemia, a jornalista e comunicadora Sheila Castro, 42, conseguia se desdobrar em vários trabalhos, além do seu emprego fixo, e ganhava até R$ 3.000 de renda por mês, fora a aposentadoria da mãe, de um salário mínimo, que também ajudava nas contas da casa que as duas dividiam. Com a crise sanitária e o caos econômico que se seguiu, a situação ficou bem diferente. “Hoje, recebo R$ 500. Minha mãe morreu há três meses, então não conto mais com o dinheiro da aposentadoria. Eu trabalho com marketing digital para pequenas empresas, mas a venda delas também caiu e está difícil chegar a um salário mínimo”, conta. 

    A história de Sheila não é um caso isolado, mas, sim, parte de uma realidade em Minas Gerais e no restante do país. Cerca de 41,4% dos trabalhadores no Estado, ou quatro a cada dez, recebem no máximo um salário mínimo de R$ 1.212, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), compilados pela Tendências Consultoria. No Brasil como um todo, o cenário é similar, e 38,2% dos trabalhadores estão nessa faixa de renda. 

    O número revela a degradação do mercado de trabalho — em 2016, o montante não chegava a 35% e, desde 2019, a taxa vem aumentando. Desde o terceiro trimestre de 2021, Minas conseguiu superar o número de empregos do início da pandemia, após sucessivas quedas. A retomada, entretanto, foi acompanhada por salários mais baixos e poucas perspectiva de melhora no futuro próximo, pontua o economista da Tendências Consultoria, Lucas Assis. 

    Sheila Castro, 42, trabalho com marketing digital para pequenas empresas e viu seu rendimento cair após a pandemia

     

    “Ainda é um mercado muito deteriorado no país e em Minas, sofrendo as cicatrizes de dois importantes choques, a recessão de 2016 e a pandemia. A melhora que observamos recentemente na queda da taxa de desemprego é um retorno à normalidade da pré-pandemia, quando a situação já estava muito fragilizada”, aponta. 

     

     

    O salário mínimo não tem um aumento real, isto é, acima da inflação, há três anos, e os R$ 1.212 perdem cada vez mais poder de compra, na medida em que a cesta básica, por exemplo, continua a ficar mais cara. O valor da cesta em Belo Horizonte em maio desde ano chegou a R$ 653,12, o que consome 58,3% do salário mínimo líquido do trabalhador, contra 52,3% há cerca de um ano, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-MG). Considerando-se o preço médio da gasolina em Minas, o trabalhador consumiria quase 34% do salário mínimo para encher um tanque de 55 litros. 

    E não é somente a classe trabalhadora que sofre com o aumento do percentual de quem recebe apenas um salário mínimo, mas toda a economia brasileira, explica a técnica do braço mineiro do Dieese Isabela Mendes. “Além da deterioração da qualidade de vida das famílias, elas tendem a consumir menos, então menos dinheiro circula, o que é ruim para toda a economia”. Ela também pontua que, por mais que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil tenha avançado em 2021, após o baque em 2020, a alta não chegou ao trabalhador. 

    “No ano passado, tivemos crescimento de 4,6% do PIB, o que significa que tivemos maior produção de bens e mais riqueza sendo gerada no país. Ao mesmo tempo, o rendimento médio real do trabalhador caiu 7%. Se a economia cresceu e o rendimento caiu, isso quer dizer que ela foi apropriada pelo segmento cuja renda não é do trabalho, e, sim, de ganho de capital, como grandes empresários, investidores e proprietários de terra e de imóveis”, conclui.

     

     

     

     

    O dobro de informais recebe até um salário mínimo

    A proporção de trabalhadores informais que recebem até um salário mínimo em Minas Gerais é mais que o dobro da taxa de formais que recebem o mesmo valor. Entre os formalizados, a taxa é de 29,8% e sobe para 59,7% entre os informais. “A informalidade é uma característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro e observamos que, tradicionalmente, os informais são os que recebem menos renda”, destaca o economista Lucas Assis, da Tendências Consultoria.  

    Além de estarem sujeitos a salários mais baixos, os informais perdem acesso a uma série de benefícios, lembra Assis: “A informalidade de parte significativa dos postos de trabalho também é uma fonte de desigualdade de rendimento, porque há um elevado contingente de pessoas sem acesso aos mecanismos de segurança da formalização, como licença-maternidade e afastamento por motivo de saúde. Mesmo a remuneração sendo pelo menos um salário mínimo para esses informais, o trabalho informal não forma o colchão social que ter um CNPJ ou carteira assinada garante”, diz. 

     

     

    Formada em pedagogia, Thaís Lana, 24, recebia um salário mínimo como auxiliar de classe em uma escola, onde tinha carteira assinada. Para receber um pouco mais, aceitou trabalhar como babá informalmente, em troca de R$ 1.500, sem os descontos do regime CLT.

    “Trabalho por fora também, como bartender, porque só essa renda não dá, já que pago aluguel de R$ 1.400 com a minha mãe, que recebe um salário mínimo. Com o aumento dos preços, deixei de ir à academia, ao salão de beleza e substituí alguns alimentos. Eram coisas importantes porque fazem bem para a saúde da mente”, diz. Hoje, com a experiência de babá, ela sonha em sair do Brasil para aumentar a renda como au pair nos EUA — categoria de intercâmbio para babás e professoras particulares no país.

    Fonte: https://www.otempo.com.br/economia/quatro-em-dez-trabalhadores-ganham-ate-um-salario-minimo-em-minas-1.2685251
    PLOX BRASIL © Copyright 2008 - 2022[email protected]