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    Mães chegam a se isolar para evitar palpites sobre a criação dos filhos

    Conselhos não solicitados e sugestões inoportunas são uma realidade comum especialmente a pais de primeira viagem

    Por Plox

    21/01/2022 10h13 - Atualizado há 5 meses

    “É estranho como algumas pessoas parecem ter dificuldade de aceitar uma decisão que nem sequer cabe a elas. Por exemplo, não entendemos o porquê de alguns ficarem incomodados com a nossa decisão de, seguindo recomendação pediátrica, não dar açúcar para nossa filha até que ela complete certa idade. Não seria mais fácil respeitar nossa opção do que se desgastar tentando forçar uma situação que não queremos?”, comentam I. Lopes, 33, e T. Barbosa, 31, pais de uma menina de 2 anos e 5 meses e que têm enfrentando juntos episódios de resistência quanto a escolhas que, em tese, com a devida orientação de especialistas, deveriam caber a eles. 

    Conselhos não solicitados sobre como criar uma criança causam estresse e incomodam mães

    “Muita gente diz que é uma covardia, que ela vai passar vontade, como se fosse possível ‘passar vontade’ por um sabor que ela nem mesmo conhece. Tem também quem diz que comeu açúcar na infância e ‘não morreu por isso’, ignorando evidências científicas que mostram como o cuidado com a alimentação é importante para a saúde como um todo. E sem falar na epidemia de diabetes que o mundo vive justamente por conta desse consumo exagerado de alimentos e bebidas açucaradas”, refletem, fazendo menção aos índices alarmantes da doença, que pode levar à morte e à amputação de membros e que atinge 17 milhões de pessoas no Brasil com idades entre 20 e 79 anos. O país é o quinto no ranking mundial, atrás apenas de Estados Unidos, China, Índia e Paquistão. 

    E os questionamentos sobre a forma de se criar a própria filha não estão restritos a questões alimentares. “As pessoas não chegam a se questionar a nossa opção de não expor nossa filha nas redes sociais, nós preferimos preservar a imagem e a privacidade dela, mas sabemos que essa posição causa espanto e incompreensão”, indicam o cientista da computação e a contadora. Também pesa na decisão o fato de ser impossível saber o alcance que as imagens podem ter, principalmente quando postadas em perfis abertos ao público. “Não há controle”, criticam.  

    Diante de tantos conselhos não solicitados e palpites inoportunos, Lopes e Barbosa convivem com uma realidade comum a muitas famílias, sobretudo quando estamos falando de pais de primeira viagem, como é o caso deles. “É muito comum essa figura que aparece trazendo uma receita pronta sobre a criação dos filhos dos outros, ignorando que cada serzinho e cada relação tem a sua particularidade. Algumas dessas pessoas chegam até a atropelar a autonomia da mãe e do pai”, reconhece a psicóloga Márcia Tosin. 

    Produzindo conteúdo sobre o movimento de criação neurocompatível, ela assinala ser comum que suas seguidoras questionem como frear tanta intromissão. “Algumas ficam inseguras, sem saber se devem seguir aqueles conselhos e sem saber quais conselhos seguir, pois o que chega é uma enxurrada de palpites, que vem de todos os lados – sendo, alguns deles, antagônicos”, aponta. Ela relata, por exemplo, o caso de uma mãe que acabou cedendo à pressão externa e acabou dando palmadas no próprio filho. “Não era o tipo de educação que ela acreditava, mas, depois de tanto ouvir, acabou fazendo isso para, em seguida, se arrepender profundamente”, expõe. 

    Márcia avalia que o sujeito que assume o papel de conselheiro intrusivo tende a gostar de ocupar um lugar de conhecimento e de autoridade. “Pode haver a intenção legítima de ajudar, mas também pode ser um tipo de autoelogio. É como se a pessoa dissesse que ela sabe mais que os outros. E se há algo que as mães se queixam muito é essa postura que parece sempre se antecipar, como se aquela pessoa soubesse tudo o que a mãe ainda vai passar”, critica. 

    Para ela, muitos desses pitacos têm como fundo um sensível choque de gerações. “Na maioria das vezes, as divergências abertas sobre as escolhas educacionais de hoje partem do pressuposto de que os pais adotam atitudes muito permissivas, que não serão capazes de disciplinar e de ter controle sobre seus filhos. É como se a gente ignorasse que estamos falando de seres humanos, que precisam de amor, de construir laços, e não de dominância”, avalia. 

    Educar-se para educar 

    A psicóloga e educadora parental Fernanda Teles também reconhece que muitas mães se sentem inseguras perante o excesso de interferências e palpites externos sobre a criação dos filhos. O que acaba sendo potencializado diante de mitos relacionados à maternidade.  

    “Algumas vão se sentir completamente perdidas quando têm um serzinho em seus braços, pois se percebem sem muitas referências e ainda precisam lidar com esses conselhos, que costumam vir da mãe e da sogra, principalmente”, pontua. E, se pode parecer mais fácil simplesmente seguir, de forma acrítica, o que manda a tradição, “há também conteúdos científicos sobre a criação de filhos, sobre a amamentação, sobre os primeiros cuidados com a criança e sobre o sono infantil. E esses dados estão disponíveis”, pondera. 

    Na avaliação de Fernanda, buscar conhecimento é fundamental para encarar tanto assédio. “Vejo que, quando há falta de preparo, muitos acabam cedendo. Por isso sempre reforço: é preciso educar-se para educar. Quando uma mãe se sente segura, ela não deixa que todos esses palpites afetem seu protagonismo na maternidade”, assegura. 

    Muito ajuda quem pouco atrapalha 

    Piora a situação quando a família, ao buscar uma rede de apoio, acaba esbarrando nesse tipo de inconveniente. “Algumas pessoas, por passar tanto do ponto, acabam mais atrapalhando do que ajudando”, opina a psicóloga Márcia Tosin, aconselhando que as mães e os pais optem pelo caminho da assertividade, se sentirem confortável para fazê-lo. 

    “Quando chega algum palpite atravessado, eu posso agradecer e informar que não é daquela forma que vou seguir. Dessa maneira, você demonstra uma valorização da presença do outro ao mesmo tempo que aponta que prefere e tem autonomia para fazer diferente”, observa. 

    Contudo, ela concorda que, algumas vezes, o afastamento pode ser necessário. “Há pessoas que são muito intrusivas, que não se colocam no seu lugar e não respeitam as escolhas dos pais. É compreensível que, por conta disso, a família opte por se afastar”, diz. E se há a perda de um elemento dessa rede de apoio, é importante reforçar outros. “O melhor seria buscar profissionais ou a escola, que vão dar esse suporte sem os pais terem que ouvir essas dicas impertinentes”, sustenta. 

    A importância de uma família que se apoia 

    Márcia Tosin lembra ser comum que as mães, ao buscarem construir um modelo de educação que destoa daquele culturalmente sugerido, sejam até mesmo coagidas pelos parceiros delas. 

    “Nas páginas sobre educação infantil, as mulheres são maioria. Nas minhas redes, 92% das pessoas que me acompanham são do gênero feminino. Muitas relatam que seus maridos, mesmo sem se informar, insistem que o modelo antigo é melhor. E isso gera ainda mais sobrecarga para a mulher, que, além de se dedicar a todas as jornadas de trabalho e de cuidado, ainda precisa se fortalecer para defender aquela perspectiva educacional que ela acredita. Esses parceiros costumam dizer coisas como: ‘Se essa criança ficar mimada, a culpa é sua’. A mensagem é que está tudo na mão daquela mãe, que ela será culpada por qualquer falha. O que vai aumentar a insegurança e deixar essas mães mais volúveis a opiniões externas”, observa. 

    “É preciso mudar essa realidade. Os pais também devem estar inseridos nesse processo de criação, dividindo responsabilidade com as mulheres. Nesse caso, se a família nuclear tomar decisões conjuntamente, se um apoiar o outro, mais fácil será lidar com críticas e julgamentos que vêm de fora”, determina a psicóloga.

    Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/maes-chegam-a-se-isolar-para-evitar-palpites-sobre-a-criacao-dos-filhos-1.2598312
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