Nova caderneta de gestante do Ministério da Saúde inclui aborto legal e linguagem neutra e gera controvérsia

Material, disponível no Meu SUS Digital e em versão impressa, detalha casos permitidos no Brasil e orienta atendimento no SUS sem autorização judicial ou boletim em situações de violência sexual.

23/05/2026 às 09:11 por Redação Plox

Nova Caderneta da Gestante do SUS inclui aborto legal e termo “pessoas que gestam”; médicos criticam

A nova Caderneta Brasileira da Gestante, lançada pelo Ministério da Saúde em versão digital pelo aplicativo Meu SUS Digital e também em formato impresso, abriu uma disputa pública sobre o conteúdo entregue a mulheres acompanhadas no pré-natal. O material passou a ser criticado por médicos que integram o Conselho Federal de Medicina por trazer orientações sobre interrupção legal da gestação e por usar expressões como “pessoas que gestam” em diferentes trechos do documento.

Médicos criticam nova Caderneta da Gestante do governo Lula

Médicos criticam nova Caderneta da Gestante do governo Lula

Foto: Ministério da saúde


No capítulo dedicado a “condições específicas na gestação”, a caderneta aborda situações como gestação não planejada, gestação não desejada, perdas gestacionais, luto e violência. O documento informa que, no Brasil, a interrupção da gestação é permitida em três situações: gravidez decorrente de violência sexual e estupro, risco à vida da gestante e anencefalia fetal. O texto também afirma que, em casos de violência sexual, o atendimento no SUS deve ocorrer sem necessidade de autorização judicial ou boletim de ocorrência.

A caderneta ainda usa formulações como “mulheres e pessoas que gestam”, “pessoa que gesta” e “pessoa gestante”. Em outra seção, o material afirma que homens trans e pessoas não binárias podem engravidar e têm direito a vivenciar a gestação, o parto e o pós-parto com respeito à identidade de gênero e ao nome social. Para o Ministério da Saúde, a atualização amplia o cuidado humanizado, integrado e sem discriminação.


Entre os críticos estão Raphael Câmara, obstetra, ex-secretário de Atenção Primária do Ministério da Saúde e conselheiro do CFM pelo Rio de Janeiro, e Francisco Cardoso, infectologista e conselheiro do CFM por São Paulo. Câmara, que participou da criação da versão anterior da caderneta, afirma que o material de pré-natal deveria se concentrar no acompanhamento da gravidez, do parto e do bebê, e não em orientações sobre aborto.

Não faz sentido algum falar de aborto nesse documento disse o médico.

Francisco Cardoso também criticou a linguagem adotada. Para ele, a substituição de termos tradicionalmente associados à maternidade por expressões mais amplas reduz a centralidade da mulher no processo gestacional. A avaliação dos médicos é que o novo texto mistura orientações de saúde com temas de forte debate moral, jurídico e político.


O ponto de maior tensão está na orientação sobre gravidez decorrente de estupro. A caderneta diz que a interrupção da gestação é um direito legal nesses casos, caso essa seja a decisão da gestante, e que a vítima não precisa apresentar boletim de ocorrência para receber atendimento em saúde. Câmara contesta esse entendimento e argumenta que a ausência de comunicação obrigatória à autoridade policial pode manter mulheres, crianças e adolescentes em situação de risco dentro do ambiente de violência.

A regra atual se apoia na Portaria GM/MS nº 1.508, de 2005, retomada após a revogação, em 2023, da portaria editada em 2020 que havia tornado obrigatória a notificação à autoridade policial em casos de interrupção da gravidez por estupro no SUS. A legislação brasileira prevê hipóteses específicas em que o aborto não é punido, e o STF também reconheceu a possibilidade de interrupção em casos de anencefalia fetal.


Ao lançar a nova versão, o Ministério da Saúde informou que a caderneta foi atualizada para qualificar o pré-natal e organizar a linha de cuidado materno-infantil no país. Segundo a pasta, o material reúne informações sobre gestação, parto, puerpério, cuidados com o bebê, vacinação, alimentação, saúde mental, direitos e rede de apoio. O governo também anunciou a distribuição de 3,2 milhões de exemplares impressos em todo o Brasil.

Questionado por veículos que publicaram a crítica dos médicos, o Ministério da Saúde defendeu que o conteúdo está voltado a pré-natal, parto, puerpério e primeiros cuidados com o bebê, além de situações que essas mulheres podem enfrentar, como saúde mental, luto materno e casos de violência. As versões anteriores da caderneta que já estavam em uso permanecem válidas durante o acompanhamento gestacional.

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