Mercado de canetas emagrecedoras pode chegar a R$ 20 bilhões no Brasil em 2026
Alta é impulsionada por medicamentos como Mounjaro e Ozempic, possível avanço de genéricos após quebra de patente e efeitos já percebidos em bares, restaurantes e no varejo.
26/03/2026 às 08:45por Redação Plox
26/03/2026 às 08:45
— por Redação Plox
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O mercado de canetas emagrecedoras tem potencial para faturar R$ 20 bilhões no Brasil em 2026 e já influencia não apenas a balança, mas também o comportamento de consumo. Com o uso cada vez mais disseminado no país, produtos como Mounjaro e Ozempic impulsionam, em primeiro lugar, o faturamento de farmácias — e seus efeitos se estendem a academias, restaurantes e lojas de roupa, que passam a se adaptar ao desejo de emagrecimento.
Restaurantes vão ser mais demandados para oferecer comida saudável, após sucesso das canetas emagrecedoras
Foto: Pexels
A projeção para 2026 representa quase o dobro do faturamento apurado no ano anterior, segundo estimativa do banco de investimentos UBS BB. O avanço é atribuído à maior adesão aos medicamentos e à perspectiva de ampliação da oferta com a quebra de patente da semaglutida, base do Ozempic e do Wegovy, que entrou em vigor em 20 de março. A avaliação é de que o movimento pode levar ao aumento de versões genéricas no mercado.
Já o princípio ativo do Mounjaro, considerado a caneta mais cara, é a tirzepatida. A quebra de patente dessa substância também é defendida em um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional.
Restaurantes testam porções menores e opções sem álcool
O impacto não fica restrito às farmácias. O cardápio de bares e restaurantes também pode mudar com a expansão do uso das canetas, avalia José Eduardo Camargo, representante da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Segundo ele, já há casos pontuais de estabelecimentos que oferecem versões reduzidas de pratos para clientes que utilizam os medicamentos, conhecidos por reduzir o apetite.
Com o barateamento, a tendência é essa. Várias coisas andarão em paralelo, incluindo opções que nem vemos ainda. Pode haver, por exemplo, troca do prato principal por duas entradas menores. No exterior, já se fala muito em investir em pratos e porções para compartilhar
José Eduardo Camargo, representante da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel)
Camargo também aponta que bares têm observado outra mudança associada ao uso do Ozempic: a redução do consumo de álcool. De acordo com ele, estabelecimentos vêm criando drinks sem álcool e registrando aumento na procura por cerveja sem álcool. A Abrasel prepara uma pesquisa, a ser conduzida a partir deste mês, para medir a repercussão das canetas nos negócios.
No interior de Minas, a rede de comida japonesa Sushi Me passou a oferecer combos menores, com oito ou 12 peças, em vez de encomendas habituais com no mínimo 20. A estratégia inclui direcionamento de propaganda nas redes sociais a usuários de Mounjaro, segundo o administrador da rede, Davi Maffia.
Ele relata que a busca por grandes quantidades vinha caindo e que a redução não estaria ligada ao preço, já que o combinado com 12 peças pode custar o mesmo que o de 20, por se tratarem de peças diferentes. Maffia pondera, porém, que não é possível estabelecer uma relação direta entre o maior uso das canetas e a queda nos pedidos por mais peças, embora afirme que a mudança nas porções tem dado resultado.
Consumo muda da comida ao guarda-roupa
Usuária de Mounjaro há cerca de oito meses, a engenheira Jéssica Brandão, de 36 anos, diz que a caneta reduziu sua fome e mudou seus gastos. Após perder 14 quilos, ela relata que passou a investir mais em comidas naturais no sacolão e em suplementos, além de gastar R$ 1.000 mensais com a caneta. O próximo passo, segundo ela, é ajustar o guarda-roupa quando o peso estiver estável.
O setor de vestuário se prepara para receber mais consumidores nessa situação. O diretor executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) afirma que o segmento observa uma transformação no comportamento de compra, com estudos indicando aumento na frequência de compras e na busca por peças diferentes, o que renova demandas por estilos, tamanhos e categorias.
Ainda assim, a mudança não seria grande a ponto de reverter a lógica de estoques e elevar a demanda por tamanhos menores de forma generalizada, segundo o consultor e diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, Marcelo Prado. Para ele, uma transformação mais evidente está no boom da moda fitness, impulsionada pelo aumento de matrículas em academias.
Prado avalia que isso altera o perfil das roupas esportivas, com o foco migrando de modalidades populares, como futebol, para outras práticas, como crossfit. Na leitura do especialista, as canetas funcionam como um impulso adicional para a continuidade dessa mudança.
Do supermercado ao consultório, novos ajustes no mercado
O setor supermercadista também sente os efeitos. O CEO do Assaí Atacadista, Belmiro Gomes, afirma que a rede se reorganizou para atender novas demandas de consumo — que, segundo ele, não foram causadas apenas pelas canetas, mas foram fortalecidas por elas. Em uma publicação no LinkedIn, o executivo relaciona o aumento da saciedade a um prato com menos quantidade e maior procura por itens saudáveis e proteicos, citando que esses medicamentos costumam causar perda de massa magra. Ele afirma ainda que, no Assaí, isso se reflete em ajustes nas lojas, como a implantação de açougues há dois anos, acompanhando o aumento do consumo de proteínas.
A mudança nos hábitos alimentares também movimenta consultórios de nutrição. A conselheira do Conselho Federal de Nutrição, Juliana Pizzol, relata aumento na procura, com pacientes buscando não perder tanta massa muscular e tentando manter a perda de peso após o uso das canetas.
Ela observa que a mudança pode ser positiva quando amplia a presença de alimentos saudáveis, mas pode se tornar prejudicial sem atenção. Entre os riscos citados por Pizzol estão déficit de nutrientes, redução na ingestão de vitaminas e minerais, além de menor consumo de água, o que pode levar a desidratação e constipação.
Com a perda de peso, outros desdobramentos corporais também aparecem — e ampliam a demanda por cirurgia plástica. A médica Marina Junqueira, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), descreve aumento na procura por cirurgias de contorno corporal após emagrecimento rápido e crescimento na demanda por lifting de face em idades mais jovens, como em pessoas de 40 anos, devido à perda de estrutura facial e envelhecimento precoce. Ela acrescenta que, em alguns casos, pacientes que antes não podiam realizar procedimentos por riscos associados à obesidade retornam aos consultórios após emagrecer e, com mais confiança, passam a considerar outras cirurgias.