Por que BH recuou na abertura do comércio

27/06/2020 08:17

Números explicam a razão da marcha à ré na reabertura em BH: em um mês, ocupação de UTIs dobrou e mortes saltaram de 42 para 109

Para evitar o pior, o prefeito Alexandre Kalil (PSD) se viu obrigado a recuar no processo de reabertura do comércio de Belo Horizonte, que já abrangia quase 92% dos empregos. Com mais lojas abertas, caíram os índices de isolamento social e subiram vertiginosamente os números de casos de COVID-19 e mortes causadas pela doença.
 


 

 

Bastou um mês de flexibilização para que a taxa de ocupação de UTIs específicas para pacientes com coronavírus mais que dobrasse: de 40% no fim de maio para 86% na quinta-feira, recorde absoluto desde o início do enfrentamento da pandemia na capital mineira.

 

Em um mês de reabertura, a quantidade de infectados mais que triplicou, numa velocidade de transmissão superior ao período anterior. As mortes saltaram de 42 para 109. Considerados dados apenas dos sete dias anteriores, BH atualmente registra em média quase 160 novos casos por dia, quatro vezes mais que os 39 do pré-abertura. Já a média de óbitos saltou de 1,5 para 2,7. O índice de transmissão por infectado (RT) se manteve estável em 1,09, acima do ideal (até 1).

 

Oficialmente, Belo Horizonte, sexta capital mais populosa do Brasil, tem menos de 5 mil casos de coronavírus. Os números, entretanto, refletem o latente problema nacional da baixa testagem da população. Estimativas feitas por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostram que, há 15 dias, o número real de infectados já era 10 vezes maior que o número atual apresentado pelo governo.

 

Kalil, então, viu-se pressionado por diferentes setores: de um lado, comerciantes de serviços que ainda estão fechados; de outro, defensores de maior rigidez no isolamento, assustados com a propagação acelerada do vírus.

A resposta do prefeito ao impasse foi adotar medidas que potencialmente atenderiam aos dois polos narrativos. O plano era aumentar a capacidade de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, a administração municipal manteria sob controle o número de vagas nos hospitais e renovaria a esperança de prosseguir com a reabertura do comércio.

 

Em uma semana, a rede pública de Belo Horizonte ganhou 93 novos leitos (21 UTIs e 72 de enfermaria). Mas não foi o suficiente. A demanda por internações provocadas por coronavírus aumentou num ritmo ainda maior, fez crescer as taxas de ocupação nos hospitais e acabou com as chances de ampliar a reabertura. Nível de alerta vermelho, apontam os especialistas do Comitê de Enfrentamento à Epidemia da COVID-19 na capital.

 

Como reflexo da piora nos índices epidemiológicos e estruturais da cidade, Kalil resolveu subir o tom contra quem deliberadamente desrespeita a ciência e ignora o bom senso. “Faltou a muita gente a compreensão de que nós estamos em guerra. Eu nunca vi fazer churrasco em prédio em guerra, eu nunca vi correr em guerra”, disse. Direcionadas especialmente à classe que parece ser a principal ameaça à popularidade do prefeito durante a pandemia, as críticas se sustentam cientificamente. Porém, o fim das “aglomerações de domingo” não solucionariam totalmente o problema de BH. 

 

Por isso, a escolha por fechar lojas de vários setores, mas manter abertos os açougues. Agora, a proposta é clara: diminuir a quantidade de trabalhadores no transporte público, esvaziar o Centro da cidade e dar fôlego extra ao SUS. Antes que surja a necessidade de lockdown.

 

 

POVO FALA

Você concorda com o fechamento do comércio não essencial?

 

 

“Trabalho com vendas, mas concordo em fechar tudo. Infelizmente tem gente que não acredita na doença. Alguns são muito irresponsáveis”

.Antônio Batista, de 56 anos, vendedor

 

 

“Era necessário fechar. Acho muito prudente pelo momento tenso que estamos vivendo. O aumento de casos é impressionante”

. Frederico Augusto Veloso Torres, de 40 anos, funcionário público

 

 

“Foi ótima decisão. O povo está brincando com a situação. Em outras pandemias ocorreu o mesmo. E elas mataram 500 milhões de pessoas, como a gripe espanhola. Temos de nos precaver”

. Cleiton Moacir dos Santos, de 57 anos, microempresário

 

 

“Uma decisão horrível. Como o comerciante vai sobreviver? O IPTU está muito alto e o governo não ajuda”

Valdir José dos Santos, de 62 anos, autônomo

 

 

 

“Kalil foi muito radical. Belo Horizonte não tem indústria e vive essencialmente do comércio e dos shoppings. A maioria dos países está voltando às atividades lentamente. Daqui a pouco, vai ter gente suicidando por causa das dívidas e da fome”

. Paulo Carvalho, de 59 anos, autônomo

 

 

“É uma atitude extremamente importante. A situação piorou muito nos últimos dias. Os casos têm tudo a ver com o aumento da circulação de pessoas. E muita gente ainda deixa de usar máscara”

. Solange Lopes Amorim, de 53 anos, jornalista

 

 

“Não concordo, pois acho que deveria manter o comércio aberto com certa cautela. Tem muita gente desempregada no país inteiro e isso não pode continuar”

. Regina Amancio, de 57 anos, auxiliar administrativo

 

 

“Acho que não deveria nem ter aberto as atividades. A situação continua muito grave, com muitas pessoas morrendo todos os dias”

. Lucia Romanelli, de 59 anos, aposentada

 

 

“É necessário voltar a fechar o comércio, já que as mortes têm aumentado. Infelizmente, é um mal necessário”

. Taís Filizzola, de 26 anos, empresária

 

 

“Não sou a favor. O comércio poderia continuar funcionando com restrições, sem deixar a saúde das pessoas de lado. Mas acho que lá na frente as consequências econômicas serão muito piores”

. Priscila Silva de Oliveira, de 28 anos, administradora

Fonte: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/06/27/interna_gerais,1160421/coronavirus-por-que-bh-recuou-na-abertura-do-comercio.shtml?utm_source=hardnews&utm_medium=hardnews&utm_campaign=score&utm_term=addicted